Um caso prático – Programa Limpa e Aduba
Henrique Vieira

O Programa Limpa e Aduba (PLA) está a decorrer entre 2019 e 2024, sendo um programa de apoio a produtores florestais de eucalipto promovido pela CELPA – Associação da Indústria Papeleira – que visa incentivar a gestão florestal, reduzir o risco de incêndio e melhorar a sustentabilidade da floresta.

De forma simplificada, a CELPA oferece fertilizante florestal aos produtores que efetuem o controlo dos matos nos seus povoamentos (‘limpa’). O PLA está implementado em 5 regiões em Portugal Continental, sendo que em cada região do programa a Celpa tem um técnico florestal responsável pela operacionalização do Programa.


No âmbito do PLA são utilizados os programas PostgreSQL, PostGIS, QGIS, QField (QGIS para Android), NextCloud e QGIS Server/Web (através da plataforma/extensão Lizmap) como se descreve de seguida.

FUNCIONAMENTO DO PROGRAMA

1. Candidatura de parcelas

Para poderem beneficiar do PLA, os produtores florestais candidatam-se através de uma rede de entidades parceiras (Parceiros) existentes no terreno – associações florestais, empresas prestadoras de serviços florestais, grupos de certificação florestal (entre outros). As candidaturas são enviadas à Celpa em formato shapefile, sendo a shapefile de candidatura previamente configurada pela Celpa com um conjunto de campos específicos referentes a informações necessárias à avaliação da candidatura. Após a receção das shapefiles com as parcelas propostas, através do QGIS é feita a validação da informação geográfica e alfanumérica, ex.: detetar parcelas sobrepostas, ou verificar se a informação alfanumérica está devidamente preenchida. Posteriormente as parcelas são carregadas numa tabela PostGIS localizada num servidor remoto. Toda a informação registada na base de dados é alvo de mecanismos de controle através de queries SQL que nos permitem controlar aspetos tais como: a área total candidatada por cada proprietário; verificar se a informação está devidamente preenchida; assinalar sobreposições entre parcelas ou parcelas duplicadas, entre outros aspetos geométricos e alfanuméricos.

2. Visita de campo

O passo seguinte consiste na visita de campo às (centenas!) de parcelas candidatadas. O objetivo da visita de campo é validar a informação rececionada nas candidaturas, confirmar se os povoamentos de eucalipto cumprem os requisitos florestais exigidos para entrada no PLA, e verificar se é necessário efetuar-se operações de limpeza prévias à adubação. A visita de campo é feita com suporte em QFIELD, para o qual é preparado em QGIS um projeto adaptado ao trabalho de campo, com formulários configurados para facilitar o registo e controlo da informação no terreno. Graficamente as parcelas adotam cores baseadas em regras relacionadas com o preenchimento de determinados campos, sendo que também temos configurados temas (map themes) que nos permitem facilmente no terreno selecionar diferentes simbologias para a mesma camada. Estas funcionalidades permitem interpretar visualmente informações das parcelas como por exemplo saber se já foram visitadas, se a informação está toda preenchida, que parcelas foram excluídas, a que parceiro pertencem, etc.

Visualização de parcelas em QField
Vista de formulário em ambiente QField

Uma vez que a camada onde estão registadas as parcelas é uma camada PostGIS localizada num servidor remoto, a ligação à rede é necessária e permite-nos aceder, editar e atualizar a informação da base de dados em tempo real. No entanto existem regiões onde a ligação à rede não é possível e, nestes casos, através do plugin QFieldSync em QGIS é facilmente criado um projeto para trabalho offline com cópias das camadas que se queiram exportar para utilização no terreno num dispositivo mobile com QField. Uma vez criado o projeto offline e as respetivas cópias das camadas que requerem ligação a um servidor remoto, estes ficheiros são automaticamente sincronizados através da aplicação NextCloud para os dispositivos móveis que irão utilizar estes ficheiros com o QField, sem necessidade de envio de ficheiros por e-mail ou por outras formas ‘manuais’. Como exemplo, a sincronização de ficheiros via NextCloud também nos permite atualizar de forma muito prática um ficheiro de projeto do QGIS onde um utilizador no escritório tenha feito configurações solicitadas por um utilizador que esteja a fazer trabalho de campo estando a utilizar esse mesmo projeto em QField.

3. Interação Parceiros – CELPA

Após carregamento das candidaturas via shapefile na base de dados PostGIS, as parcelas submetidas ficam disponíveis para consulta e acompanhamento por parte dos respetivos Parceiros e proprietários através de um visualizador WebGIS configurado a partir do plugin Lizmap em QGIS. No WebGIS, cada entidade parceira pode fazer login na sua conta e saber em tempo real qual o ponto de situação das parcelas que candidatou: parcelas ainda não visitadas, parcelas já visitadas, parcelas aprovadas, parcelas excluídas; mas os parceiros têm também a possibilidade de editar a base de dados adicionando ou corrigindo informação em falta.

No WebGIS os parceiros podem consultar em tempo real a informação relativa às candidaturas que submeteram.

4. Emissão de fichas de aceitação ao PLA

No seguimento da visita de campo, e da informação recolhida, é gerada automaticamente uma ficha de aceitação por cada parcela aprovada, resultando na produção de milhares de fichas. Esta ficha é entregue ao proprietário indicando que a parcela candidatada foi aceite, que operações de limpeza são necessárias efetuar, assim como a quantidade de adubo atribuído à parcela.

Esta ficha é produzida automaticamente através da função atlas do compositor de impressão do QGIS.

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A utilização destas ferramentas tem-se revelado extremamente poderosa e versátil, permitindo a operacionalização de um Programa no qual constam até ao momento cerca de 3 000 proprietários florestais, 40 000 ha, e 28 900 parcelas florestais. E continuará a ser a base estrutural da informação deste programa que pretende abranger 100 000 ha até ao ano de 2024.

Parceiro técnico: NaturalGIS LDA

NaturalGIS

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